ago 282009

Com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal de eliminar a exigência de diploma de jornalismo para o exercício da profissão, estamos presenciando uma discussão complexa que está misturando coisas diferentes. De um lado o corporativismo de uma classe que deseja ser reconhecida como diferente ou melhor que as demais, por possuir um diploma, e do outro um grupo de pessoas com habilidade para expressar suas ideias.

Ora, esta discussão parece mais conversa em pátio de hospício, pois o grupo que defende a exigência diz que isto é importante para o exercício correto do jornalismo. Se isto é realmente importante, os jornalistas formados não precisam se preocupar, pois os jornais, que não estão aqui para perder dinheiro, só contratarão gente com diploma para garantir seus índices de leitura e faturamento. Ou será que isto não é verdade? O único motivo de os jornais contratarem profissionais sem diplomas, mas competentes, é se os profissionais formados tiverem as mesmas competências dos advogados que não conseguem passar nas provas da OAB. Será isto, então, que preocupa os diplomados: medo da concorrência com pessoas sem habilitação? Passar pela vergonha da comparação com supostos incapazes?

Por outro lado, temos a turma que ficou satisfeita com a decisão, pois isto permitirá o exercício da liberdade de expressão. Opa, liberdade de expressão é diferente de liberdade de imprensa, ou pelo menos deveria ser. A meu ver, liberdade de expressão significa a publicação de ideias e opiniões sobre fatos ou visões de mundo, muito mais com caráter de expor as informações pessoais ou restritas próprias do expositor. Em contrapartida, liberdade de imprensa significa expor fatos e opiniões sobre terceiros, expondo ao público informações não próprias do expositor; por isto a exigência de responsabilidade sobre as publicações jornalísticas. O meu site é um exemplo do exercício da liberdade de expressão, e não de imprensa.

Mas a decisão do STF permitirá que qualquer pessoa possa exercitar a liberdade de imprensa. E qual é o problema disto? Alguns dizem que a qualidade do jornalismo será comprometida. Alguém está de sacanagem, pois com a atual qualidade, com jornais ou programas de TV expondo sobre a vida alheia sem o menor critério, o único meio de garantir a responsabilidade pelo conteúdo é a justiça. Neste caso, não vejo a menor diferença entre o jornalista ter ou não diploma, pois a justiça deve ser igual para todos. Tudo bem que existam “uns mais iguais” que outros, mas isto já é outro assunto.

Então, até agora, não vimos nada de concreto que justifique o desespero dos jornalistas diplomados e suas associações ou clubinhos de amigos, que é o que parece.

Entretanto, a possibilidade de todos serem jornalistas permitirá que a geração de conteúdo seja distribuída e não mais centralizada. Poderemos ter conteúdo jornalístico gerado em cada canto deste país, sem a intervenção de grupos econômicos fortes e manipuladores; os mesmos que contratam os jornalistas diplomados. Assim, aquelas pessoas que têm habilidades para escrever ou produzir vídeos poderão contar ao mundo o que acontece em seus ambientes, não restritas a colocarem vídeos idiotas no Youtube. É bom lembrar que na maioria destes locais não tem um jornalista formado, pois estes preferem o conforto das cidades grandes. Bastarão observar a lei de responsabilidade, evitando processos judiciais ou mesmo uma bala não perdida.

Então, podemos concluir que esta decisão atirou no que viu e acertou no que não viu, pois permitirá que novos postos de trabalho, com capacidade de mudar os rumos deste país, sejam gerados nas localidades dependentes quase que exclusivamente da agropecuária ou de indústrias semi-escravizadoras. Esta liberdade permitirá, aliada à tecnologia de comunicação moderna, que as bocas, até então silenciosamente oprimidas, possam gritar para o mundo e mostrar o que acontece nestas localidades, além de garantir a identidade da regionalidade, hoje tão comprometida por conta da massificação de conteúdo gerado de forma centralizada. Este aumento na entropia do sistema de informações proporcionará, também, um aumento na circulação da riqueza associada a este novo conteúdo.

Portanto, viva a liberdade de expressão. Viva a liberdade de imprensa!

Alexandre Guimarães

18/06/2009

Leave a Reply

(required)

(required)